#betrend entrevista

"A verdade é que as inspirações cruzam-se e misturam-se mas não fogem de Portugal"

Bordados e tecelagem de várias gerações da família de Joana Duarte, são hoje a imagem da BÉHEN. Uma marca com história e saberes portugueses.
De Santarém para o mundo, a designer, Joana Duarte, criou a sua própria marca – BÉHEN – apresentando-a pela primeira vez ao público em 2020 na ModaLisboa. Com o intuito de reduzir o impacto ambiental através do Up-cycling, a BÉHEN é uma marca que procura preservar os saberes portugueses na área têxtil, trabalhando assim, com diversos artesãos em Portugal Continental e nas Ilhas.
 
Fique a conhecer mais da história da Joana e de uma marca que continuará a dar que falar em Portugal e no mundo – a BÉHEN.
 

O que é que a moda significa para ti? Porque decidiste seguir um caminho nesta indústria?

Foi essa a questão que levou à criação da BÉHEN. Toda uma crise existencial e a procura pela minha identidade enquanto designer.
A BÉHEN surgiu quando percebi que sou Designer de Moda, mas que antes de Moda está Designer. E os Designers devem responder a problemas atuais. E foi assim que começou.

Joana Duarte_BÉHEN_Betrend

Sabemos que foi numa viagem à India que nasceu o sonho de criar a tua própria marca, conta-nos como foi a criação da BÉHEN. Em que consiste e como foi todo o processo de criação?

A melhor forma de explicar a BÉHEN é recuar até ao meu mestrado e enquanto estudante de Moda em Londres. Para mim a questão foi “Como é que enquanto designer de Moda posso contribuir para os outros e para uma menor pegada ecológica na indústria da moda?” Na altura pareceu-me uma missão impossível, mas estava fora de questão ser Designer de Moda apenas porque sim. Claro que o facto de estar envolvida em vários projetos de ação social e o meu interesse por arte política vieram influenciar todo o meu percurso e perspetiva em relação ao papel do design e do próprio designer.
Fiz muita pesquisa de materiais antigos quando estava na Índia, onde aprendi muito sobre a importância dos saris e do passar de geração em geração, conceito que afinal sempre esteve presente comigo já que na minha família o enxoval ainda faz parte. Na altura procurava por materiais que já existissem e que ainda ninguém estivesse a explorar, começou com uma colcha há 5 anos atrás comprada numa feira de antiguidades em Santarém e que se transformou num casaco.
Apesar da BÉHEN ser um projeto recente, todo o conceito e comunidade de mulheres envolvidas na produção levou muito tempo a construir. Levou tempo porque o objetivo nunca foi criar uma marca só porque sim, tinha de ter realmente impacto nas comunidades envolvidas. E a prova do impacto é ver o número de pessoas envolvidas a crescer a cada coleção e o número de colchas e toalhas antigas que ganharam uma nova vida.

Como é ver as tuas criações nas passerelles da ModaLisboa e em publicações de moda internacionais?

Acho que em qualquer projeto, o passar fronteiras é sempre uma conquista. Mais um passo numa caminhada ainda longa. É bom sentir reconhecimento por parte de outros criativos fora de Portugal, especialmente quando conseguimos promover o saber-fazer português e as artes tradicionais. E que as mesmas sejam reconhecidas lá fora.  Acima de tudo é mostrar que a moda, se feita com consciência e ética, pode ajudar na promoção destas artes e na valorização do trabalho das inúmeras bordadeiras e artesãos em Portugal.

Defensora de uma moda sem desperdício, como olhas para esta indústria e qual a tua opinião sobre as posições que muitas marcas estão a tomar face a temas como a sustentabilidade?

Joana Duarte_BÉHEN_Betrend

Enquanto designer considero que é fundamental os grandes nomes da indústria não terem receio de procurar colaborações e soluções para o desperdício. A verdade é que nada é 100% mas há que ser ativo na procura por alternativas e ser criativo. Claro que existe toda a questão do Greenwashing, que é cada vez mais um problema. A Transparência por parte destas marcas devia ser obrigatória e acessível a todos. Qualquer projeto que seja criado hoje em dia, tem de ter em consideração a pegada ecológica da indústria, e é verdade que o consumidor tem um papel muito importante, mas as marcas ainda mais. Não acredito que o desejo de querer ter umas calças mais x ou y desapareça, por isso cabe a quem produz, ser responsável e ponderado no que cria e mostra ao mundo.

Que dicas nos podes dar para todos sermos mais conscientes e a reduzir o desperdício na moda?

Ser criativo e não deitar logo fora peças que estão em bom estado! O Up-cycling tem um potencial enorme e é muito mais sustentável reutilizar essa peça que já temos. Mas claro que primeiramente, consumir menos. Muito menos.

Quais são as tuas inspirações para a próxima estação?

Passa sempre pelo universo feminino e as histórias de família sobre os bordados e as tapeçarias. A verdade é que as inspirações cruzam-se e misturam-se mas não fogem de Portugal.

No futuro, qual é o maior desejo profissional que gostavas de concretizar?

De contribuir para um sistema profissional mais apelativo para os artesãos, mas também para incentivar a nova geração a aprender e a proteger estas artes, para que nunca desapareçam.